A conversa do vizinho

Abro a porta de casa e saio com minha cachorrinha. Seu passeio diário. Está tarde mas saio mesmo assim como todas as noites. Já virou rotina. Observo cautelosamente as grandes árvores que envolvem a praça, a brisa suave em meus cabelos, até que meu olhar chega nele… Meu vizinho que quase todas as noites se encontra sentado no banco de pedra da praça. Seu olhar cruza com o meu e logo o desvio. Um calafrio sobe em minha espinha.

  • Boa noite

  • Boa noite – respondo seca.

Continuo o meu percurso com minha cachorrinha, dando passos rápidos… Me afastando dele.

  • A noite está bonita hoje, não?! – ele fala alto, para que eu escute da distância em que estou.

  • Está sim.

  • É… – silêncio absoluto.

A conversa intenze já havia terminado mas seus olhos continuavam sobre mim… Eu podia sentir.

Quando eu era mais nova eu e meu pai costumávamos passear juntos com a cachorrinha. Quando esse vizinho aparecia nós conversavamos com ele. Confesso que era até legal mas agora tudo parecia estranho. Tudo havia mudado, eu cresci e meu olhar sobre as pessoas não era o mesmo de uma criança de dez anos. Agora nossas conversas não eram mais tão legais… eram incômodas.

Nada fazia sentido, porque tudo parecia normal… Nossa conversa parecia normal, ele parecia normal, uma pessoa boa e gentil. Ele só é era uma pessoa carente que queria conversar com alguém, só isso mas apesar dessa minha conclusão eu me incomodava. Me incomodava com seu jeito de falar, com seus gestos, com seu andar… Me incomodava com tudo nele.

  • Está frio hoje.

  • É mesmo. – eu respondia tentando parecer simpática.

Tinha pena dele e não queria que parecesse que eu estava com medo, que estava tentando evitá-lo pois todo esse desconfiar sobre ele poderia ser apenas uma loucura da minha cabeça, não é?!

Fazia o possível para que ele não desconfiasse de nada mas é claro que ele percebia porque meus olhos não tinham coragem de olhar para os dele. Sempre olhava para o chão, ou para o outra lado da rua, como se realmente tivesse algo pra olhar.

Outro dia, sai novamente… Ele estava sentado em seu banco de sempre.

  • Oi, menina.

Ele….

  • Oi.

  • Oh, me desculpe o erro. Menina não, uma mulher já.

Ignorei seu comentário, andando para longe com minha cachorra, só que dessa vez ele veio atrás.

  • Já tem namorado?

  • Não.

  • Se eu tivesse sua idade com certeza namoraria você… Com certeza.

Uma mistura de enjoo com medo apareceu. A adrenalina provavelmente estava correndo em minhas veias e tudo que eu mais queria era sumir. Desaparecer daquela praça.

  • Preciso ir – minha voz trêmula quase desapareceu.

Entrei em casa e uma pequena lágrima brotou em meus olhos.

Minha vontade de sair de casa sumiu completamente. O que antes para mim era incrível agora era coberto de medo. Sempre que chegava perto do horário da saída eu desistia. Não conseguia me ver lá fora com ele de novo, não conseguia!

Ficava o dia inteiro pensando que ele estava lá fora, sentado naquele banco horrível, me esperando… Esperando que eu voltasse.

Certa noite acordei com luzes fortes vindo do lado de fora. Vinha de uma casa nas proximidades. Coloquei minha cabeça para fora da janela e vi… A luz vinha da frente da casa dele. Policiais o algemavam e o estranho é que ele estava completamente calmo, completamente normal sem nem dizer uma palavra para se defender.

Segundos antes dos policiais o colocarem dentro do carro, seu olhar cruzou com o meu. Seus olhos diziam tudo, menos arrependimento. Desviei, agradecendo por nunca mais ter que vê-lo novamente.

Foto: https://pixabay.com/pt/users/wal_172619-12138562/
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