ELES ERAM SÓ AMIGOS…

Eles eram amigos, aquele tipo de amizade onde não se esconde nada, onde era comum se ver todos os dias apesar de estar fora da rotina. Falavam sobre tudo, davam conselhos, faziam piadas, era difícil se desentenderem. Ela confiava muito nele e era isso que lhe dava conforto, ele a considerava seu porto-seguro, pra onde corria quando as coisas não estavam boas. Até aquele momento, os dois tinham visões parecidas:

Ela

Ele era muito carinhoso, ela gostava disso. Eram os abraços dele que as vezes a consolava de uma maneira única, era aquele abraço que significava pra ela que ele ainda estava ali, independente do que acontecesse. Ela ficava feliz em vê-lo, se sentia completamente confortável em se abrir pra ele e era aquilo que considerava uma das coisas mais importantes. 

Ele 

A família dele era difícil, nada fácil de lidar. E ela estava sempre ali, quando queria se distanciar pelo menos por alguns minutos de certas realidades ele a procurava. É claro que havia outras amigas, mas nenhuma era igual a ela.  A confiança entre os dois trazia a ele a certeza de que não estava sozinho. 

Ela

A situação começou a ser diferente. Os abraços se tornaram mais constantes, e algum tempo depois, até mais invasivos. Ela não entendia se era porque estavam mais velhos ou se talvez a intimidade entre os dois amigos estivesse apenas aumentando. Acreditando mais na segunda opção, ela decidiu levar aquilo como positivo, apesar do incomodo, já que era tudo tão sutil e discreto que talvez fosse apenas coisas da cabeça dela. 

Ele 

Além dos dois haviam outros. Outros que insistiam em comentar, em dar opiniões e em se envolver. No começo não era um problema, afinal as brincadeiras sempre existiram e nunca feriram ninguém ali, mas isso já começava a ir além, muito além do que ele mesmo se dava conta. “Não vai ficar com ela?” “Como assim só amigo dela” eles diziam. Isso parecia não importar no começo, mas naquele momento ele se via percebendo o peso disso. 

Ela

Não era mais tão bom quanto antes. Os abraços e carinhos já não eram tão confortáveis, a intimidade já avançava mais do que ela gostaria. Talvez fosse difícil admitir, e com certeza difícil de acreditar que ele, que se mostrava tão leal a ela, que se mostrava tão amigo, pudesse fazer alguma coisa que a prejudicasse, ou ao menos que pudesse estar fazendo alguma coisa de propósito. Era difícil de acreditar e muito mais difícil de reagir de alguma forma. Por um momento ela pensou em deixar pra lá, deixar que isso fosse esquecido. 

Ele 

Aqueles meninos que antes só brincavam, naquele momento o perturbavam muito. Como podia ele ser tão próximo a ela e não ter intenções por trás? Como podia ele não fazer nada com a menina? Pelo menos era o que diziam, era o que insistiam em comentar. Ele não acreditava em nada daquilo… ou pelo menos pensava que não. Talvez fosse mais fácil agir em vez de os escutar falando mais. Ele sabia que não podia, mas depois de um longo período dos comentários diários, ele não sabia se conseguiria evitar. Talvez aquela fosse a verdade e apenas ele não conseguia ver. Passou a acreditar que ele era o verdadeiro problema. 

Ela 

O conforto ao lado dele já não era igual o de antes. Mas ela insistia em pensar que ela era o problema, talvez ela tivesse esses pensamentos ou quem sabe ela estava só  incriminando o menino. Como só ela percebia o que estava acontecendo e ninguém a sua volta se dava conta? Ela pensava estar errada. Ela não sabia o que estava acontecendo, ou preferia pensar assim… tomar uma atitude não era tão fácil. Enquanto ela queria apenas um abraço de consolo, ganhava dele mãos em lugares em  que ela nunca desejou. Ela preferia ignorar o fato de que a cada dia ele ia mais longe, ignorar o fato de que cada dia ela se sentia mais desconfortável e que aquilo passava a ser cada vez menos discreto. 

Ele 

Ele sabia que não podia estar fazendo aquilo. Mas o que os outros meninos iriam pensar dele? No fundo ele sabia que aquilo não importava, mas o sofrimento dele diante das brincadeiras dos meninos (que passavam a falar sério agora) dizia o contrário. Ele percebia que passava dos limites, percebia que ela nunca havia dado essa intimidade a ele, ou até mesmo a expressão no rosto dela de desconforto e desconfiança. Mas era mais fácil continuar, já que para eles as palavras dos meninos pesavam mais do que o rosto de sufoco da menina. 

Ela 

Ela não aguentava mais, desistiu de ignorar, desistiu de acreditar que ela era o problema. Queria sair daquilo, não podia continuar fingindo acreditar que ele nunca faria isso se tudo acontecia na sua frente. Mesmo que ele era discreto, ela percebia, ela não gostava, se sentia mal, se sentia abusada. Não podia continuar tentando não ferir ele com suas palavras se ele a feria toda vez com suas atitudes. Ela decidiu se levantar, fazer alguma coisa, aquilo não trazia mais felicidade, trazia apenas medo, apenas raiva. Passou a achar que o odiava, que nunca mais queria o ver na sua vida, que ele faria um favor se nunca mais aparecesse na sua frente. Demorou a perceber que o que sentia era traição, se sentia traída. 

Ele

Ele percebeu alguma diferença. Percebeu que nada mais era como antes, e se continuasse se deixando levar pelas palavras dos meninos, que nunca o acrescentaram nada, perderia uma das coisas mais importantes na vida: uma amizade verdadeira e sincera. Queria ir atrás dela, sentiu todo o peso que antes a menina sentia quando o via. Não deixaria que aquilo mexesse com ele, que aquilo destruísse o que ele mais amava. Ele pode tentar, ele pode correr atrás, mas já era tarde demais. 

 

Igualdade de gênero é lutar por uma sociedade que não tente moldar homens e mulheres. Buscar a igualdade de gêneros não beneficia apenas mulheres, mas homens também, é ela que destrói esteriótipos de como devem ser as características masculinas e como devem ser as femininas, determinando como devem se comportar. 

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