Os gritos do canto da casa

Naquele dia ele veio com flores e um discurso lindo que nos amava, e que nunca quis nosso mal, e que para sempre, iria cuidar de nós. Minha mãe chorou, e naquele dia tivemos um jantar delicioso. Todos na mesa, jantando, conversando e por incrível que pareça sorrindo.

Naquele dia, quando deu meia noite, eu ouvi uma discussão, não me parecia nada de mais, mas depois vieram alguns resmungos, e depois… eu já tinha entendido, e depois de uma hora, minha mãe veio correndo para o meu quarto, falando que meu pai tinha adormecido, e se ela não podia dormir comigo. Foi um abraço sincero, com muita dor e angustia, logo depois de ter sido estuprada e agredida pelo próprio marido. Em suas mãos eu via as marcas roxas, em seus braços eu vinha os arranhões e foi só olhar para baixo para ver suas pernas entrelaçadas com as minhas, e imaginar o que tinha acontecido no quarto o qual eu deveria sentir um amor incondicional, como todas as minhas amigas, que adoravam passar o maior tempo possível nos quartos dos pais, mas a única coisa que eu sentia por aquele cômodo era nojo, tanto por ele, como por seu dono.

Naquele dia ele veio com um ursinho e um poema, pedindo desculpas por ter passado mais uma semana fora e por ter chego bêbado em casa, e como um peixe em uma isca, minha mãe chorou, o abraçou e o perdoou como sempre, e deixou com que aquele homem, que infelizmente tinha o mesmo sangue que o meu, entrasse em nosso lar de novo. Como eu bem esperava, as quatro da manhã, minha mãe entrou desesperada em meu quarto, me abraçou pelas costas e disse que me amava.Enquanto eu fingia que dormia, sentia suas lágrimas caírem em meu corpo. Lágrimas pesadas, que me doíam só de senti-las por cima do meu pijama.

Naquele dia ele chegou e não teve nem desculpas, eu só o vi chegar e dar um tapa na cara dela depois dela ter perguntando onde ele tinha passado aquele mês. Eu só ouvi mesas e cadeiras sendo arremessadas, tapas sendo dados e muito, mas muito choro.

Naquele dia, quando meu pai chegou em casa, ela estava vazia. Fazia uma semana que estava vazia, e só fiquei sabendo que sua doce visita porque uma amiga me ligou avisando que a casa tinha sido arrombada e que só se ouviam gritos. Gritos parecidos com o que ouvi durante anos.

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